criticismo radical parte 7: o Marx infinito? Kurz como precursor de uma estrada abandonada.
Não é raro ouvir "Marx foi um teórico muito importante para compreender a revolução" ou "Marx foi um grande filósofo e crítico da economia política", essas duas frases expressam uma coisa supérflua: um Marx diverso. Mas tem outra coisa para além dessa esfera a ser investigada pelos criticistas radicais. Dentro da tese "Marx diverso" temos que analisar a preposição e começar a se perguntar até onde Marx é diverso?
Um ótimo jeito de começar as investigações é através do caminho feito pelo Robert Kurz nos seus textos referentes ao duplo Marx, segundo Kurz:
"O Marx nº 1 é o Marx universalmente conhecido, "exotérico" e positivo, o descendente e dissidente do liberalismo, o político socialista do seu tempo e mentor do movimento operário, que nunca quis outra coisa senão direitos de cidadania e um "salário justo para uma jornada de trabalho justa". Esse Marx nº 1 parece adoptar uma perspectiva ontológica do trabalho com a correspondente ética protestante, reivindicar a "mais-valia não paga" e querer substituir a "propriedade privada dos meios de produção" (jurídica) pela propriedade estatal."
Esse primeiro Marx é o Marx dos marxistas (em breve no artigo voltarei a falar sobre ele), esse Marx aparenta acreditar que a lógica da exploração capitalista é causada pelo conflito de classes e não pelo capital e suas raízes, então seu plano revolucionário é mudar as raízes do capital de lugar e por uma classe diferente no poder delas (no caso os trabalhadores), diferente do outro Marx:
"Esse Marx nº 2 é o até hoje obscuro e pouco conhecido Marx "esotérico" e negativo, o descobridor do fetichismo social e crítico radical do "trabalho abstracto" e respectiva ética repressiva, que caracterizam o moderno sistema produtor de mercadorias. O Marx nº 2 orienta a sua análise teórica não pelos interesses sociais imanentes ao sistema, mas muito mais pelo carácter histórico desse mesmo sistema. O problema aqui já não é a "mais-valia não paga" ou o poder jurídico de disposição da propriedade privada, mas a própria forma social do valor, que é comum às classes em luta e a primeira causa do antagonismo de seus interesses. Tal forma é "fetichista", porque constitui uma estrutura sem sujeito, "por trás das costas" de todos os envolvidos, na qual eles são conjuntamente submetidos ao incessante processo cibernético de uma transformação de energia humana abstracta em dinheiro."
Esse segundo Marx é um Marx com um estudo maior de sociologia e antropologia questionando o caráter antropológico e sociológico de algumas relações, inclusive das relações sociais fetichistas.
Segundo Kurz essa divisão não pode ser que nem a feita por Althusser, onde a divisão era de jovem e velho Marx, essa dívida era ilógica segundo Kurz, a posição do Marx esotérico crítico do fetiche e do trabalho acontece desde o manifesto e seus escritos mais jovem, o mesmo ocorre com o oposto.
No entanto, a análise feita por Kurz nós trás até um certo ponto muito interessante, a crítica do trabalho e a divisão de Marx como historicamente estabelecida, para conseguir ir mais afundo na compreensão de Marx precisamos investigar mais afundo, mas como fazer isso? O trabalho na sociedade capitalista é o centro de tudo, no entanto a sociedade não se faz só pelo centro ela é uma estrutura muito complexa de várias relações culturais, artísticas, educacionais, etc. existe a existência da hipótese investigativa "será que só existe só dois Marx sobre o trabalho?" Essa questão será prioridade perante as outras no início deste artigo.
Para começar a investigar o conceito de trabalho em Marx precisamos passar a desenvolver o conceito de mercadoria, pois o núcleo do trabalho (o trabalho puro sem as divisões feitas pelo próprio Marx) é mercadoria, no capital ele diz:
"A mercadoria é, antes de tudo, um objeto externo, uma coisa que, por meio de suas propriedades, satisfaz necessidades humanas de um tipo qualquer. A natureza dessas necessidades – se, por exemplo, elas provêm do estômago ou da imaginação – não altera em nada a questão. Tampouco se trata aqui de como a coisa satisfaz a necessidade humana, se diretamente, como meio de subsistência [Lebensmittel], isto é, como objeto de fruição, ou indiretamente, como meio de produção."
Nesse primeiro trecho já podemos ver uma sentença presente em toda mercadoria "(...) satisfaz necessidades humanas de um tipo qualquer." Veja o trabalho é justamente isso, ele é um objeto externo de si mesmo pois o trabalho não pode se autoproduzir e foi feito para suprir as necessidades humanas de determinada época. Como pode se ver o trabalho não é mercadoria somente na sua força como apresenta o próprio Marx, mas em toda sua forma, agora a pergunta é o trabalho é um objeto de fruição ou um meio de produção?
Os dois, sim o trabalho pode se manifestar como um meio de subsistência ao produzir alimentos e produtos necessários para a sobrevivência da espécie humana, mas pode ser meio de produção também por produzir mercadorias, inclusive o trabalho é a única mercadoria que pode ser de fruição e de meio de produção ao mesmo tempo.
Indo mais adiante no livro Marx diz:
"Toda coisa útil, como ferro, papel etc., deve ser considerada sob um duplo ponto de vista: o da qualidade e o da quantidade. Cada uma dessas coisas é um conjunto de muitas propriedades e pode, por isso, ser útil sob diversos aspectos. Descobrir esses diversos aspectos e, portanto, as múltiplas formas de uso das coisas é um ato histórico. Assim como também é um ato histórico encontrar as medidas sociais para a quantidade das coisas úteis. A diversidade das medidas das mercadorias resulta, em parte, da natureza diversa dos objetos a serem medidos e, em parte, da convenção.
A utilidade de uma coisa faz dela um valor de uso. Mas essa utilidade não flutua no ar. Condicionada pelas propriedades do corpo da mercadoria [Warenkörper], ela não existe sem esse corpo. Por isso, o próprio corpo da mercadoria, como ferro, trigo, diamante etc., é um valor de uso ou um bem. Esse seu caráter não depende do fato de a apropriação de suas qualidades úteis custar muito ou pouco trabalho aos homens. Na consideração do valor de uso será sempre pressuposta sua determinidade [Bestimmtheit] quantitativa, como uma dúzia de relógios, 1 braça de linho, 1 tonelada de ferro etc. Os valores de uso das mercadorias fornecem o material para uma disciplina específica, a merceologia. O valor de uso se efetiva apenas no uso ou no consumo. Os valores de uso formam o conteúdo material da riqueza, qualquer que seja a forma social desta. Na forma de sociedade que iremos analisar, eles constituem, ao mesmo tempo, os suportes materiais [stofflische Träger] do valor de troca."
Veja como Marx começa a introduzir na mercadoria o valor de uso e valor de troca, alguns pseudoteoricos como Lenin, Stalin, trotsky, etc. vão afirmar que a mercadoria não pode ser vista como mercadoria nesse ponto pois é impossível a análise da categoria trabalho nessa parte, mas será que é impossível mesmo? Vamos ver.
O trabalho assim como o resto das mercadorias tem sua utilidade múltipla, definida por um conjunto infinito de possibilidades onde a investigação dessas utilidades é um ato histórico assim como é um ato histórico as medidas sociais para as utilidades para a mercadoria no caso o trabalho.
Avançando mais na análise temos esse trecho "A utilidade de uma coisa faz dela um valor de uso. Mas essa utilidade não flutua no ar. Condicionada pelas propriedades do corpo da mercadoria [Warenkörper], ela não existe sem esse corpo. Por isso, o próprio corpo da mercadoria, como ferro, trigo, diamante etc., é um valor de uso ou um bem. Esse seu caráter não depende do fato de a apropriação de suas qualidades úteis custar muito ou pouco trabalho aos homens." O trabalho entra aqui com uma facilidade gigantesca, vejamos, o trabalho tem uma utilidade conhecida, a produção de mercadorias, logo o trabalho é um valor de uso que reproduz valor de uso(mais tarde vamos falar sobre isso), e, assim como as mercadorias fora ele, o trabalho depende do seu corpo para ter utilidade, no caso o corpo da mercadoria trabalho são justamente os que trabalham, mas e as ferramentas de trabalho? Elas não passam disso ferramentas, mais para frente no artigo na análise que faremos sobre os grundisse poderemos perceber com clareza o que eu já irei colocar aqui, as ferramentas de trabalho não são um corpo da mercadoria pois eles não tem função por si só, as ferramentas só ganham finalidades quando são usadas por trabalhadores, vamos pegar um exemplo, em uma fazenda tem uma plantação para ser colida e uma enxada, porém o trabalhador está no hospital, para que serve a enxada se ninguém usa ela? Exatamente para nada, o trabalho aqui não pode ser útil com a enxada, mas pode ser com os trabalhadores, então para que servem as ferramentas de trabalho? Para facilitar o trabalho produzido por eles.
Agora que detalhamos todos os pontos da relação trabalho e mercadoria desses dois trechos, vamos para outro muito importante:
"O valor de troca aparece inicialmente como a relação quantitativa, a proporção na qual valores de uso de um tipo são trocados por valores de uso de outro tipo, uma relação que se altera constantemente no tempo e no espaço. Por isso, o valor de troca parece algo acidental e puramente relativo, um valor de troca intrínseco, imanente à mercadoria (valeur intrinsèque); portanto, uma contradictio in adjecto [contradição nos próprios termos]. Vejamos a coisa mais de perto."
Ao fazer a análise da categoria trabalho pode se ver que o trabalho não tem só valor de uso, mas tem valor de troca também, mas, qual é esse valor de troca? A própria força de trabalho, ela é medida, quantitativa, e, apresenta uma particularidade, a força de trabalho é o valor de troca que produz valor de troca pois o trabalho produz mercadoria em si.
Como podemos observar, o trabalho assume o papel de uma mercadoria especial, ou seja, todos os desdobramentos feitos com a mercadoria ocorre aqui a questão porém é que o trabalho produz suas particularidades justamente por ser uma mercadoria produtora de mercadorias.
Marx no capital vai dividir o trabalho em duas partes aparentes, o trabalho concreto e o trabalho abstrato, Marx diz:
"Todo trabalho é, por um lado, dispêndio de força humana de trabalho em sentido fisiológico, e graças a essa sua propriedade de trabalho humano igual ou abstrato ele gera o valor das mercadorias. Por outro lado, todo trabalho é dispêndio de força humana de trabalho numa forma específica, determinada à realização de um fim, e, nessa qualidade de trabalho concreto e útil, ele produz valores de uso."
Todo trabalho como diz Marx e dispêndio de força humana de trabalho em sentido fisiológico, nesse sentido do trecho Marx dá razão ao Kurz quando ele diz que todo trabalho é trabalho abstrato, pois o trabalho concreto é também uma forma de abstração do capital, assim como o trabalho abstrato.
Até agora ficamos analisando a mercadoria e o trabalho em Marx, no que isso é útil para saber se Marx era positivo ou negativo ao trabalho?
A utilidade dessa análise é justamente essa, mostrar que assim como o capital e a mercadoria no geral acaba se modificando para sobreviver nas crises, o trabalho entra nessa mesma lógica, ou seja, Marx pode ser visto de três maneiras no quesito do trabalho, uma visão positivista do trabalho, onde o trabalho aparece como uma forma de valorização social. Uma visão negativa da categoria trabalho, onde o trabalho é visto como inerente ao capitalismo não sendo possível uma revolução sem a abolição do trabalho. A última visão é uma forma de negação só espaço, nessa fase, diz respeito a uma valorização da categoria trabalho, mas não na forma que conhecemos, o trabalho modificado por meio de crises cíclicas ou de uma crise imanente do capital.
Mas podemos ver além da leitura do capital para continuar esse processo investigativo, Marx escreve nos grundisse importantes reflexões sobre o capital, Marx diz:
"O trabalho parece uma categoria muito simples. A representação do trabalho nessa universalidade – como trabalho em geral – também é muito antiga. Contudo, concebido economicamente nessa simplicidade, o “trabalho” é uma categoria tão moderna quanto as relações que geram essa simples abstração."
O trabalho aparece aqui no grundisse como uma relação superficial e nova, o trabalho só existe no capitalismo é a abstração dessas relações, mas o trabalho não para por aí, Marx desenvolve o trabalho para além da sua superficialidade, mas isso já é conhecido para os leitores desse artigo, no grundisse temos a preposição de Marx sobre as máquinas, a tecnologia.
A máquina de trabalho aparece aqui como um facilitador da produção de mercadorias, mas isso é sua forma simples, na prática o assunto acaba se desenvolvendo para algo profundo e muito além de Marx (para entender sobre leia o próximo artigo, "criticismo radical parte 8: avançando para além do século XIX"), o que acontece na realidade é que na entrada das máquinas e da tecnologia cada vez mais desenvolvida a produção de mercadorias teve uma mudança inversamente proporcional, enquanto a quantidade de mercadorias aumentou, a qualidade diminuiu. A tecnologia mostrou falsa a tese da redução da jornada de trabalho por conta da tecnologia, o trabalho continuou com o mesmo tempo (mudando só por pressão social), mas podemos dizer que os sujeitos de trabalho tiveram suas vidas mudadas pela máquina, onde o desemprego mais se desenvolveu tornando o mesmo parte estrutural do capitalismo.
No assunto desprendido nesse último parágrafo podemos perceber uma série de estudos sobre a sociedade para ter uma maior compreensão sobre a categoria trabalho, o estudo de Marx sobre as categorias apresentadas se torna infinitas.
O Marx subjetivo
O dito Marx subjetivo não é uma categoria de diferenciação entre Marx, o Marx objetivo x o Marx subjetivo, mas uma apresentação de como Marx encara a subjetividade, o que pode parecer contraditório por conta da famosa tese 11, mas ao analisar as obras de Marx percebemos que Marx é um dos filósofos que interpretam o mundo.
A tese 11 é um exemplo de mal entendido ela diz:
"Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que
importa é transformá-lo."
O mal entendido aqui é na interpretação que enxerga nessa proposição como, todo filósofo está fadado a interpretar o mundo e que a transformação do mundo não pode acontecer por filósofos, quando temos a primeira afirmação, os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras, não significa que os filósofos vão deixar de serem humanos e impedir as transformações sociais.
O mesmo não acontece no inverso, um "transformador" do mundo pode interpretalo sem estudo prévio, isso é impossível, a transformação social só acontece por conta dos filósofos que interpretam o mundo.
Para ir além da tese 11 podemos levar em conta que essa visão de subjetividade e objetividade se encontra presente nesse trecho, a subjetividade apresenta aqui uma condicional da objetividade em Marx, toda tentativa de interpretação é uma forma de manifestação da subjetividade, a objetividade se apresenta aqui como toda tentativa de mudar o mundo, sendo impossível estabelecer uma objetividade sem uma subjetividade; do que adianta tentar mudar o mundo se não conseguimos explicar ele, não conseguimos interpretar ele? A subjetividade ganha o papel de vitalidade da sua objetividade.
O Marx subjetivo continua:
"As relações entre os interesses e os ânimos, as verdadeiras relações entre os indivíduos ainda estão para ser criadas entre nós inteiramente, e o suicídio não é mais do que um entre os mil e um sintomas da luta social geral, sempre percebida em fatos recentes, da qual tantos combatentes se retiram porque estão cansados de serem contados entre as vítimas ou porque se insurgem contra a ideia de assumir um lugar honroso entre os carrascos. Se se querem alguns exemplos, vou tirá-los de processos autênticos."
O suicídio aqui visto como uma consequência dentre várias de uma objetividade só acontece pela falta da subjetividade, como o próprio Marx diz "as verdadeiras relações entre os indivíduos ainda estão para ser criadas entre nós inteiramente", essas relações são subjetivas pois elas são feitas por sujeitos entre si.
Marx infinito?
Ao considerar Marx como um autor com um conteúdo inesgotável por si só carregamos um certo problema, o Marx é vasto na sua própria obra, mas sua obra ganha um caráter infinito através da hermenêutica e das novas leituras.
A hermenêutica é a arte da compreensão, ela não pode fugir da obra original, por exemplo, se Ricardo fala sobre o cinema realista, José que é um autor que faz uma hermenêutica de Ricardo, está preso a compreender a obra de Ricardo como o cinema realista e suas modificações (podendo ser sobre qualquer coisa relacionada ao tema em si).
A nova leitura aparece como uma forma completamente mais ampla do que a hermenêutica, diferente da hermenêutica a nova leitura acaba desenvolvendo a estrutura da argumentação do autor de base, não é mais sua categoria, a crítica da economia política de Marx sendo usado por duayer como crítica da epistemologia.
A nova leitura pode ser considerado um novo sistema de interpretações, a complexidade de Marx é vista aqui como algo além de Marx, porém, a sua infinitude deixa uma lacuna infinita também, a lacuna temporal na qual o criticismo radical pretende combater.
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